Ansiedade

O post de hoje é provavelmente o mais pessoal que eu já fiz nesse blog. Há algum tempo eu queria falar sobre esse assunto, mas só hoje eu tomei coragem e coloquei pra fora tudo que eu tenho guardado dentro de mim. Como podem perceber pelo título, o post de hoje é sobre a minha relação com a ansiedade. Antes de começar, quero alertar que esse post pode ser gatilho/trigger para algumas pessoas, então leiam com cuidado.

Eu já falei algumas vezes aqui no blog – de maneira bem leve – que eu sofria de ansiedade. Até já compartilhei alguns apps que me ajudaram nessa jornada e comentei brevemente o quanto algumas ações como meditar e ser organizada me ajudavam com a ansiedade, mas nunca explorei esse tópico com afinco. Não é como seu eu escondesse isso das pessoas, mas eu simplesmente não comentava porque eu ainda não tinha isso resolvido dentro de mim. Eu tinha essa coisa de, até eu ter isso resolvido comigo mesma internamente, eu não compartilharia com o mundo. Agora eu já estou numa posição que eu me sinto resolvida sobre esse assunto. Não tenho mais vergonha.

ansiedade

A verdade é que há 3 anos eu fui diagnosticada com síndrome do pânico/distúrbio de ansiedade. Hoje eu consigo perceber que desde criança eu sofria por causa da ansiedade. Eu não dormia à noite antes dos primeiros dias de aula, de tanta ansiedade pro dia seguinte. A mesma coisa acontecia nas noites anteriores a saídas de campo, viagens, grandes festas… Eu sempre deixava as coisas pro último segundo, porque pensar em responsabilidades me causava uma ansiedade imensa e, consequentemente, me paralisava. E é daí que eu percebi que minha ansiedade não era “normal”. Porque todo mundo tem um pouco de ansiedade, seja antes de uma grande prova, seja antes de uma viagem que você esperava há um tempo. Esse tipo de ansiedade “normal” geralmente te anima, te excita, te impulsiona. E isso é super saudável, porque te incentiva a fazer as coisas. O problema é que minha ansiedade me paralisa.

A primeira vez que eu tive um ataque de pânico foi na noite anterior ao primeiro dia do vestibular. Eu estava num momento extremamente estressante da minha vida. Tinha passado os últimos 6 meses num cursinho me preparando para aqueles dois dias de vestibular, e na minha cabeça, meu futuro dependia disso. Eu não poderia falhar. O cursinho era um ambiente muito exaustivo física e mentalmente. Era um ambiente destruidor, que me trouxe stress e crises de enxaqueca. Eu sempre coloquei muita pressão sobre mim mesma para exceder nas coisas, e acho que isso é um dos motivos pelo qual a ansiedade me controla(va).

Voltando àquela fatídica noite… a primeira vez que eu tive um ataque de pânico foi na noite anterior ao primeiro dia do vestibular. Todos já tinham ido dormir e eu estava, há algumas horas, tentando fazer o mesmo. Meus pensamentos estavam acelerados, e de repente meu coração também começou a acelerar. Com isso, eu comecei a hiperventilar, minha respiração cada vez mais rápida e curta. Meus músculos estavam todos tensos, e eu estava paralisada. Minha cabeça estava leve e eu pensei que ia desmaiar. Depois de um tempo, eu pensei que estava morrendo. Foi um dos momentos mais assustadores da minha vida! Eu não conseguia pedir por ajuda, eu não conseguia fazer nada a não ser passar por aquilo sozinha. Depois do que eu achei que fosse uma eternidade (mas na verdade deve ter sido uns 10 minutos), eu consegui me acalmar. Eu estava exausta, confusa e apavorada. O que tinha sido aquilo? Será que iria acontecer de novo?

Como eu sempre fui apaixonada por psicologia, já sabia mais ou menos o que eram ataques de pânico, mas não tinha certeza de que o que tinha acontecido comigo era uma crise de pânico. De qualquer forma, fiz o que ninguém deve fazer: fui no google e coloquei meus sintomas. Deu de tudo e eu fiquei mais apavorada ainda! Resolvi que lidaria com aquilo depois e após muitas horas, consegui dormir. No final das contas, consegui fazer os dois dias de vestibular e passei pro curso que eu queria, apesar de não saber como eu consegui fazer a prova depois daquela noite terrível.

Não contei pros meus pais de imediato, até porque eu não tinha certeza do que tinha acontecido comigo. Algumas semanas depois eu faria uma viagem pro exterior com minha família. Eu estava esperando por essa viagem há muito tempo e estava super animada! Na noite anterior a essa viagem, depois que todos foram dormir, eu tive 3 ataques de pânico seguidos, de mais ou menos 15 minutos cada um. Eu não dormi essa noite, mas também não contei pra minha família o que tinha acontecido. Viajamos e todo momento que eu estive fora eu fiquei pensando no que acontecera. Procurei saber mais sobre ataques de pânico e pensei que era isso que tinha acontecido comigo. Precisava falar sobre isso com alguém, então contei o que acontecera pro meu namorado, que obviamente me encorajou a falar sobre isso com meus pais. Acho que eles ficaram meio desconfiados no começo, mas fomos falar com uma psiquiatra mesmo assim. Isso foi na mesma época que minha aulas da faculdade começaram. Eu estava super feliz: tinha começado no curso que eu queria, na faculdade que eu queria, estava super feliz com meu namoro, minha família e meus amigos… enfim, eu estava vivendo a vida que eu sempre quis. Até que eu comecei a ter ataques de pânico mais frequentes: na rodoviária, no meu quarto, no metrô. Comecei a não querer ir nesses lugares, porque tinha medo de vir outra crise.

Com toda crise vinha uma onda de tristeza profunda. O dia que essa tristeza bateu mais forte foi na primeira vez que minha mãe me viu tendo um ataque de pânico. Ela nunca tinha visto isso acontecer, e numa manhã enquanto eu estava arrumando minhas coisas, todos os sintomas me cobriram como uma tsunami. Eu só consegui correr pra perto da janela, porque eu tinha certeza que estava morrendo sufocada. Meu quarto parecia que estava ficando cada vez menor e, de novo, a sensação que eu estava prestes a morrer veio com tudo. Basicamente, a adrenalina estava fazendo o caos na minha mente. Eu nem percebi o momento que minha mãe correu do quatro dela pro meu, só percebi que ela estava do meu lado quando senti seus braços ao meu redor, suas palavras de conforto chegando alto aos meus ouvidos. As lágrimas vieram instantaneamente nas duas, apesar da minha mãe tentar ser forte e esconder as delas. Deu para ver o desespero nos olhos dela, a impotência de ver sua filha sofrendo e não poder fazer “nada”. Desde que fui na psiquiatra aquela primeira vez, sempre andei com um Rivotril sub-lingual comigo, mas nunca lembrava de tomá-lo. Graças à Deus minha mãe estava lá naquele momento e me deu o remédio, que fez efeito até bem rápido. Passei algumas semanas extremamente triste depois desse episódio, principalmente por ter visto o desespero nos olhos da minha mãe. Quando eu estou tendo crises de pânico, uma das minhas reações é me esconder das pessoas. Eu não queria que ninguém me visse naquele estado, então me escondia em banheiros, salas, qualquer lugar que eu não pudesse ser vista. Péssima escolha. Como se as pessoas fossem rir de mim e não tentar me ajudar. Idiota, mas esse era o jeito que minha mente funcionava.

Comecei a fazer um tratamento com remédio controlado, que eu tomo até hoje. No começo eu pensei que o remédio não estava fazendo efeito, mas depois eu fiquei mais tranquila sabendo que o remédio estava teoricamente impedindo que a adrenalina fizesse minha mente de gato e sapato. Hoje eu sei que o remédio pode não impedir todos os ataques de pânico de acontecerem, mas sei que eu fico melhor com ele.

ansiedade

O Wikipedia descreve os ataques de pânico como: “Um ataque de pânico, também conhecido como crise de pânico ou crise de ansiedade, é um período de intenso medo ou desconforto, tipicamente abrupto. Os sintomas (variam de pessoa para pessoa e são no mínimo cinco para ser considerada uma crise) incluem tremores, calafrios, sensação de desespero, desrealização ou despersonalização, ondas de calor, dificuldade em respirar, palpitações do coração, náuseas e tontura. A desordem difere de outros tipos de ansiedade na medida em que o ataque de pânico acontece de forma súbita, parece não ter sido provocado e é geralmente incapacitante.”  

Basicamente, meu cérebro acha que está numa situação de perigo quando na verdade não está. Ele entra em modo “lutar ou fugir” e uma quantidade enorme de adrenalina é liberada. Por isso meu coração bate mais forte, meus músculos ficam tensos, minha respiração acelera. Meus sentidos ficam mais aguçados e geralmente eu me tremo toda. A sensação de ter um ataque de pânico é tão ruim e física e mentalmente exaustiva que eu não desejaria isso nem para o meu pior inimigo! Sem contar na tristeza e no medo de ter outro ataque que geralmente vem depois de uma crise… 💔

Quando eu fui diagnosticada, fiquei feliz e triste ao mesmo tempo. Feliz por finalmente saber o que eu estava sentindo e triste por saber que era um transtorno psicológico. Era uma doença mental, sem cura. Isso me pegou de jeito e eu tinha vergonha de falar isso pras pessoas. Ainda existia um estigma muito grande em relação a transtornos psicológicos, e eu não conhecia pessoalmente ninguém que tinha isso. Me sentia “anormal”, estranha, louca. Como se tivesse algo de errado em mim, como se ninguém nunca fosse me compreender. Até que a faculdade me apresentou algumas pessoas incríveis que sofriam com a mesma coisa que eu sofro e que me deram esperança. Me fizeram compreender mais toda essa situação e o melhor: me aceitaram do jeito que eu sou. ♡

Hoje em dia eu estou bem melhor do que eu já estive. Já não tenho um ataque de pânico há quase um ano e a ansiedade já não me controla como antes controlava. Uma das melhores coisas que eu fiz em relação a minha ansiedade, além de começar a tomar o remédio, foi começar a terapia. Com a terapia eu comecei a me entender melhor, entender as raízes da minha ansiedade, entender as razões por trás das minhas ações. Acima de tudo, a terapeuta me fez ser mais gentil comigo mesma. Isso também veio com um grande apoio do meu namorado, da minha família, dos meus amigos e de todo mundo que eu confiei o meu “segredo”. Como se pra me ajudar, a sociedade em geral começou a ser bem mais compreensiva em relação aos transtornos psicológicos, e eu conheci muitas outras pessoas que também tinham distúrbio de pânico.

Hoje em dia eu já tenho meus artifícios para lidar com a ansiedade. Hoje em dia eu me conheço melhor e entendo minhas “limitações”. Hoje em dia eu já não me sinto mal de sair de um lugar porque eu estou ansiosa. Hoje em dia eu já não me pressiono mais para conseguir exceder em tudo. Hoje em dia eu sou mais gentil comigo mesma, e tendo viver cada dia de cada vez. Hoje em dia eu finalmente não tenho mais vergonha da minha condição.

Se você sofre com ansiedade, quero te dizer que você não está sozinha. Quero te dizer que você não precisa colocar nada acima da sua saúde mental (faculdade/trabalho/relacionamentos/etc)! Seja mais gentil consigo mesma e tente viver um dia de cada vez. Não é fácil, mas tem muita gente por ai que pode te ajudar a enfrentar tudo isso (incluindo eu mesma). Busque ajuda tanto profissional quanto daqueles que você ama e confia. Ansiedade não é frescura.

Eu já cheguei a pensar que nunca teria uma vida “normal” por causa do distúrbio de pânico. Pensei que seria sempre refém da minha ansiedade. Atualmente eu já tenho uma visão diferente de tudo isso. Claro que eu tenho dias bons e dias ruins, mas cada vez mais estou aprendendo a lidar com os últimos.

Espero que esse post não tenha sido tão maçante de ler e que eu tenha ajudado alguém. Desculpa se faltou alguma coerência no texto… eu simplesmente me derramei sobre o teclado… Espero que entendam ♡ Depois eu vou escrever um post mais detalhado do que me ajudou nessa jornada e como eu estou hoje.

Fotos: Magdeleine

Author: Tatyanna Gois

Tatyanna Gois é brasiliense, tem 22 anos e prefere ser chamada de Taty. Cursa Relações Internacionais mas ama fotografia, maquiagens e um bom café coado. É viciada em internet e não vive sem o celular na mão. Ela é daquelas sonhadoras incuráveis, que colocam um pouco do seu coração em tudo que decidem fazer. ♡

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