Entrevista com intercambista: Lara Maia Silveira

Ao longo desses dois anos de blog eu percebi que um dos assuntos que eu mais gosto de escrever e que vocês gostam de ler é sobre intercâmbio. Para não ficar repetindo sempre as mesmas histórias do meu intercâmbio pra Inglaterra, tive a ideia de fazer uma série de entrevistas com intercambistas que eu conheço, para que eles pudessem compartilhar as experiências deles com vocês.

Estou super animada para essa série de posts! A minha primeira entrevistada é a Lara Maia Silveira, uma amiga minha da faculdade que está em Montpellier, na França! Sem mais delongas, vamos à entrevista!

Um pouco mais sobre a Lara…

Intercâmbio na França

Me chamo Lara Silveira, tenho 20 anos e nasci no Piauí 😀 morei a minha vida toda em Teresina, até resolver sair “de baixo das asinhas dos meus pais” pra me aventurar na capital e fazer o curso que eu queria desde os 14 anos: Relações Internacionais (REL) na UnB 😀 Cheguei na França na metade de dezembro e viajei um pouquinho pelo país antes de vir definitivamente à Montpellier. Comecei o ano novo, literalmente, com vida nova. Cheguei em Montpellier no dia 01 de janeiro porque minhas aulas já começavam no dia 04.

Por que você escolheu fazer intercâmbio em Montpellier?
Comecei a fazer francês no meu primeiro semestre do curso. E, logo, me apaixonei pela cultura, culinária, filmes…queria sempre saber mais sobre o país. A escolha de vir à França foi pela língua mesmo, queria aperfeiçoar o idioma. Quanto à escolha da cidade, sou apaixonada por business, gestão empresarial e comércio internacional. Além disso, como uma verdadeira piauiense, amo o calor, sol, praia e, assumo, que detesto o frio. Montpellier me oferecia tudo isso. Mesmo no inverno, as temperaturas eram amenas em comparação ao restante do país. E aqui eu estudei no Institut d’Administration des Entreprises, na Université de Montpellier 2. Esse Instituto é uma escola de business que tem em várias cidades francesas e são super renomados aqui! Esse semestre foi muuito bom e me mostrou as direções para um futuro pós-REL 🙂

Intercâmbio na França

Como é viver ai? O custo de vida é muito alto na cidade/país em que está?
Montpellier é uma cidade estudantil. O custo de vida não é tão alto quando comparado à Paris e consegui ficar na Residência Universitária. Resolvi tudo do Brasil, então quando cheguei já tinha onde ficar e o aluguel é relativamente barato. Inclusive, a minha vida aqui é mais barata que minha vida em Brasília.

Amo a arquitetura daqui. Tudo branquinho, com muita influência grega. Logo na praça principal, a Comédie, a gente se depara com a fonte “Trois Grâces”, que representa as três filhas de Zeus.

Quanto à rotina, assumo que sofri bastante no começo. O semestre francês é mais curto (por exemplo, já estou de férias da faculdade e tenho agora apenas aula de francês) e muuito mais tranquilo que o semestre brasileiro, a carga de leitura é bem menor. Não tive muitas matérias aqui. E, especificamente, na minha faculdade, as aulas não eram em dias e horários fixos. A cada semana variava e eu precisava ficar sempre atenta às mudanças de cronograma. Além disso, aqui tem várias mini-férias no meio do semestre, que duram de uma a duas semanas, dependendo do período e da faculdade. Minha maior dificuldade em relação à rotina foi a solidão. Morar sozinha não era um problema, porque já morava só em Brasília. Maior problema mesmo foi formar um grupo de amigos, especialmente nos dois primeiros meses.

Como meu foco era o francês, escolhi todas as matérias nessa língua, enquanto a maioria dos intercambistas fazia matérias em inglês. Apesar de sempre conversar com os franceses que faziam aula comigo, eles não se mostraram muito abertos para sair. Assim, tive que correr para outros intercambistas. Me infiltrei em vários eventos promovidos pelo Erasmus (programa de intercâmbio europeu) e, assim, fui conhecendo gente e montando meu grupinho. Não foi fácil. Me senti muito só, principalmente no começo e, cheguei, inclusive, a pedir pra minha mãe antecipar minha volta (fico aqui até julho). Ainda bem que ela não mudou!

Apesar das dificuldades, foi um excelente período pra me conhecer de verdade, me entender mais e saber como eu lido com as situações fora da Zona de Conforto. Só me senti realmente adaptada à nova vida depois de uns três meses e, agora, minha mentalidade é completamente diferente. Enquanto no começo achava que 6 meses era muito tempo, hoje já acredito que é pouco. Ainda tem taaanta coisa que quero fazer e já estou quase indo embora ☹️

Intercâmbio na França

Você já sabia falar a língua antes de ir?
Já sim, precisava provar nível pra conseguir vir. Fui a louca dos cursos intensivos de francês no ano passado kkkk não lembro de ter uma dificuldade em si em relação ao idioma, claro que minhas primeira semanas foram mais complicadas, já que precisava resolver coisas em francês na Universidade, banco, alojamento…no final, sempre dava um jeito e conseguia me comunicar.

Os episódios que mais me marcaram por causa da língua foram na verdade, mais cômicos do que uma dificuldade em si. Um deles, foi há umas três semanas. Fui fazer um passeio com duas amigas canadenses (de Québec, falam francês como língua materna), a gente subiu em um pico de 700m que fica pertinho daqui, o Pic Saint-Loup (2h subindo, tava morrendo já kkkk). E quando a gente chegou no topo, pedi pra uma delas tirar uma foto minha sentada. Mas na hora de falar, fiz uma mistureba entre o inglês e o francês e, ao invés de falar “je vais m’asseoir”, falei “je vais me sitter”, do verbo “sit” do inglês. Tudo bem, erro todo mundo faz, mas elas entenderam “je vais sauter” (vou saltar/pular) e começaram a falar “o que? Você tá louca?”. Eu estava sem entender nada, afinal, só queria uma foto sentada. No fim, conseguimos nos entender e elas me explicaram o que tinham entendido. kkkkkk

Intercâmbio na França

O que você mais gosta da cidade/país que está?
Gosto muito do hábito francês de aproveitar bem a cidade e encaixar as crianças nos passeios culturais. Algo que, no Brasil, a gente afasta porque “criança faz bagunça”. Um dos lugares que mais amo aqui em Montpellier é a Médiathèque Centrale, uma espécie de biblioteca interativa, com salas de jogos (xadrez, ping-pong), váriooos livros e andares temáticos. Tem um que é dedicado à música, outro para os arquivos da cidade (esse é restrito, não tenho acesso) e um andar para as crianças, com vários puffs coloridos espalhados. É lotado, especialmente nos finais de semana!

Como já disse, gosto bastante da temperatura aqui também e estou super ansiosa para começar a aproveitar as praias pertinho daqui! Além disso, é claro que não posso deixar de falar da culinária… AMO!

Teve alguma diferença cultural entre o Brasil e o país que você está que te deixou surpresa?
Muitoooos!!! Primeiro, na maioria das casas separam o “toalete” da “sala de banho” (ou seja, vaso sanitário em um lugar, pia e chuveiro em outro – eles não tem o hábito de lavar as mãos após usar o banheiro 😱. Meu maior choque foi justamente com esses hábitos. Lhe entregam a comida com a mesma mão que pegam o seu dinheiro, raramente usam luvas para tocar no alimento que vão lhe entregar. A famosa baguete, então, nem se fala…colocam embaixo do braço, lhe entregam sem embalagem na padaria…já vi, inclusive, pessoas colocarem a baguete no chão pra apoiar enquanto passam manteiga/requeijão…é chocante!

Intercâmbio na França

Você foi para outras cidades/países que não o que você está morando?
Desde o início, decidi viajar pela França. Queria conhecer bastante o país, identificar as diferenças arquitetônicas, culturais e de pronúncia de uma cidade pra outra. Viajei bastante por aqui, conheci 10 cidades já e vou fazer outras no início de maio. Até agora, o único país que vou é a Inglaterra no início de junho! Meu sonho conhecer Londres, escolhi passar meu aniversário lá.

Qual é a coisa mais difícil de fazer um intercâmbio?
A solidão. Vim sem conhecer ninguém, meu primeiro dia completamente só aqui foi horrível (meu namorado veio comigo na minha primeira semana, ele também está fazendo intercâmbio aqui na França, mas em outra cidade. Fiquei muito mal depois que ele foi embora). Despertei medos que nem eu sabia que existiam, já que moro só há 3 anos e isso nunca tinha sido um problema.

Além disso, sempre tem aquele momento que o que você mais queria era estar perto da sua família, de quem você ama. Um dos meus piores dias foi quando recebi uma notícia que me abalou muito e não tinha ninguém aqui comigo apenas pra me abraçar. Esses são os piores momentos.

Intercâmbio na França

E qual é a melhor parte de fazer um intercâmbio?
Você se conhece. Começa a ver as coisas de forma diferente, se abre mais pro mundo e para novas oportunidades. Vive coisas que nunca pensou que viveria (no mesmo passeio ao Pico com as duas canadenses, tivemos que sair pedindo carona no meio da estrada…foi muito divertido!). Acho que o intercâmbio me incentivou a viver mais, de uma forma mais leve…saber que eu tenho que dedicar um tempo para as minhas obrigações, mas que preciso de um tempo pra mim mesma também!

Como você lida com a saudade?
Já convivo com essa danada há um tempinho…facetime, whatsapp ajudam muito! Estou sempre em contato com minha família, mandando fotos, contando e sabendo das novidades! E acredito que a força vem justamente de casa. Minha família sempre me apoiou em TUDO!

E lidar com a saudade é difícil porque sempre fui extremamente apegada não apenas ao ciclo “pais e irmãos”, mas sempre fui muuuito próxima dos meus avós, primos, tios…todo mundo! Sinto falta, especialmente, nos sábados e domingos, quando todo mundo se reúne pra almoçar junto, me mandam fotos…e eu sou a única que está longe! Saber disso me dói muito, mas é o preço de “escolher voar”, né?

Intercâmbio na França

Foi/é difícil fazer amigos na França?
Sim! Principalmente com os franceses. Não é “lenda urbana” que eles são fechados e individualistas. Minha turma era pequena, cerca de 25 pessoas. No intervalo, eles se reuniam e eu conseguia conversar com quase todo mundo, mas nunca me chamaram pra sair. O contato não saia de lá. Por isso, a maioria dos meus amigos são intercambistas. O que tem pontos muito positivos, já que, assim como eu, querem viajar, fazer passeios turísticos, conhecer bastante a cidade, se reunir com outros intercambistas…o que é ótimo pra conhecer várias culturas diferentes! Tenho amigos da Grécia, Marrocos, Canadá, Alemanha, Eslováquia, Equador, Honduras, Espanha….aaah conheci alguns brasileiros também! 🙂

Intercâmbio na França

Tem alguma dica para futuros intercambistas?
Se jogaaa! Medos, desafios, problemas vão sempre aparecer…mas o crescimento pessoal é incrível! É muito bom sair da zona de conforto! Fora que o contato com outras culturas, abre muito a sua visão!

Como você acha que o intercâmbio te mudou?
Eu me conheci mais! E percebi que mudei em vários aspectos. Principalmente em como gastar e economizar meu dinheiro. Com isso, mudei não apenas minhas prioridades de vida, o que eu realmente quero pra mim, como também mudei meus hábitos alimentares…estou mais saudável, comendo mais fruta, salada. Evito comer fora, pra economizar e viajar, por isso, preparo todas as minhas refeições. Também acho que foi um momento pra colocar minha “cabeça no lugar” e começar a me planejar pra um futuro pós-formatura! Só tive ganhos positivos! Aaaah, minto! De negativo, acho que engordei alguns kilinhos (hehe) chocolate suuuper barato e estou sedentária 😁 estou amando minha experiência e todos os desafios! Pena que já estou pertinho de voltar, logo agora que me sinto completamente adaptada e gostando cada dia mais da nova vida!


Fazer esse post com a Lara foi uma delícia! Ela é um amor de pessoa e ouví-la falar do seu intercâmbio só me deu mais saudade do meu! E ai, o que acharam da entrevista e dessa série de posts? Eu fiquei com vontade de visitar todos os lugares das fotos dela! Sigam a Lara no instagram para acompanharem mais da viagem maravilhosa dela!

Se vocês tiverem alguma pergunta em relação ao intercâmbio da Lara ou em relação a intercâmbios em geral, não deixem de escrevê-las nos comentários!

Author: Tatyanna Gois

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