Entrevista com intercambista: Saphíria Shimizu

O feedback de vocês no primeiro post de entrevistas com intercambistas foi incrível! Nas últimas semanas tive o prazer de entrevistar uma amiga muito querida para essa série de posts e acho que vocês vão adorar o relato dela!

A entrevistada de hoje é a Saphíria Shimizu, uma amiga minha da faculdade que está fazendo intercâmbio em Aarhus, na Dinamarca! 

Um pouco mais sobre a Saphíria…

intercâmbio na Dinamarca

Meu nome é Saphíria, tenho 20 anos, sou carioca-manauara e estudo Relações Internacionais na Universidade de Brasília. Atualmente estou fazendo um intercâmbio de 6 meses na cidade de Aarhus, Dinamarca. Saí dos 30 graus de Brasília para os -12 de Aarhus em Janeiro, e hoje, toda vez que os termômetros mostram dois dígitos (acima do zero, hahah) eu comemoro!

Por que você escolheu fazer intercâmbio na Dinamarca?
O primeiro motivo foi bem pragmático. Precisei escolher uma língua para fazer o intercâmbio, e escolhi o inglês. A universidade de destino também precisava ofertar um curso relacionado ao meu. Como estudo Relações Internacionais, decidi pelo curso de Negociações Internacionais (International Business), ofertada pela Universidade de Aarhus. Fui pelo ranking também. Hoje, a AU está classificada entre as 100 melhores universidades do mundo, e se é para fazer um intercâmbio, por que não tentar nas melhores? Por último, como nunca tinha vindo para a Europa antes, a ideia de vir para a Dinamarca me atraiu bastante. Confesso que recebi muita influência das minhas amigas que também vieram fazer intercâmbio aqui, em anos anteriores, e todas elas voltaram falando que amaram! Não me arrependo de ter escolhido o país mais feliz do mundo para vir estudar!

intercâmbio na Dinamarca

Como é viver em Aarhus? O custo de vida é muito alto na cidade/país em que está? 
Às vezes, tenho a sensação de que moro em uma utopia, já que tudo é muito organizado, seguro (muito estranho andar na rua sem sentir medo, o que deveria ser normal) e funciona bem. Aarhus é uma cidade estudantil (de 300 mil habitantes, 50 mil são estudantes!), então possui um ar bastante boêmio, principalmente no centro da cidade. Existem cafés, bares e pubs em todos os lugares, e a vida noturna por aqui é bastante agitada! O custo de vida por aqui é caro (mas não tanto quanto Copenhage), então raras vezes saio para comer. Faço minha própria comida (aprendi a gostar de cozinhar, e hoje me aventuro em algumas receitas), ando de bicicleta ao invés de ônibus (que custa 20 coroas dinamarquesas, aproximadamente 10 reais!), mudei radicalmente meu estilo de vida. Doce ou refrigerante? Só se pegar uma promoção bem bacana ou fazer a sua própria guloseima em casa, já que são altamente taxados (uma garrafa de 600ml de Coca-Cola chega a custar 20 coroas ou mais). Os impostos são elevadíssimos, mas em compensação saúde e educação são de qualidade e de graça para todos.

Aarhus é a segunda maior cidade da Dinamarca, mas na verdade é a menor cidade grande do mundo. Ela tem um ar interiorano, pouco turístico, que eu adoro de coração!! Copenhage me perdoe, mas eu prefiro Aarhus porque eu me sinto muito mais acolhida! Uma das minhas atividades favoritas por aqui é pegar minha bicicleta e ir até o centro, percorrendo os parques e ver a vida passar perto dos canais. Só na hora de voltar fica complicado, porque a cidade possui muitas ladeiras (na ida é descida, então é aquela sensação de liberdade hahah). Estou aguardando ansiosamente as temperaturas aumentarem um pouquinho para poder curtir a praia. Aliás, mesmo no porto as águas são transparentes e limpíssimas.

intercâmbio na Dinamarca

Lá no Brasil, eu passava o dia inteiro (das 7 da manhã às 10 da noite) na Universidade. Aqui eu tenho pouquíssimas aulas (a maioria uma vez por semana), o que consequentemente, me dá muito tempo livre (que na verdade eu deveria usar para estudar as matérias hehe). Até pela minha personalidade eu passo muito tempo em casa, mas quando me dá vontade, sempre vou explorar algum lugar novo.

Você já sabia falar a língua antes de ir?
Se eu falava dinamarquês antes? Rs, Nej! Na Dinamarca todas as pessoas falam inglês fluentemente, então a língua nunca foi um problema! Assim que cheguei me matriculei nas aulas de dinamarquês que são ofertadas de graça, e hoje já consigo falar/entender o básico. Até canto em dinamarquês no Karaoke hahaha.

intercâmbio na Dinamarca

O que você mais gosta da cidade/país que está?
Eu adoro o alto nível de confiança que as pessoas têm em relação a outras pessoas! É muito comum ver bebês dormindo no carrinho do lado de fora das lojas, enquanto os pais estão fazendo compras. Inclusive teve um caso de um casal de dinamarqueses que foi autuado nos EUA por negligência ao deixarem o bebê do lado de fora, hahah. As crianças são muito bem tratadas por aqui e é possível vê-las em qualquer lugar, muitas delas usando um macacãozinho para o frio, fofíssimas! Os transportes públicos daqui também não têm catracas, e raramente tem fiscalização, então vai do bom senso de cada um decidir pagar ou não a passagem. Não é uma surpresa que a Dinamarca seja um dos países com menor índice de corrupção do mundo.

Aqui tudo é ecológico! Existe um esquema onde as pessoas recebem dinheiro ao reciclarem garrafas pet. As garrafas são divididas em várias categorias, e você pode receber de 1 a 3 coroas, se não me engano. Há um incentivo muito grande para usar a bicicleta. De fato, por aqui é muito mais provável ser atropelado por uma bicicleta que por um carro hahah. Os produtos vendidos no supermercado também são em maioria orgânicos, e é bem clara a preferência dos dinamarqueses por esse tipo de comida.

Por último, a Dinamarca é o país mais feliz do mundo, e não é difícil entender o porquê! Há uma grande igualdade de gênero e de renda, e as pessoas realmente parecem valorizar as pequenas coisas da vida  ♡.

Teve alguma diferença cultural entre o Brasil e o país que você está que te deixou surpresa?
O primeiro impacto logo de cara foi o frio! No começo eu sofri bastante, porque os dias eram muito curtos e realmente ainda hoje sinto falta do sol. Deve ser por isso que os dinamarqueses adoram velas! Outra diferença é o grau de objetividade das pessoas. Os dinamarqueses são bem diretos e sinceros, o que no começo pode assustar, mas é só o jeitinho deles! Eu gosto muito desse aspecto, até porque eu sei que eles não tão escolhendo as palavras só para serem educados. Não há uma palavra correspondente a “por favor” em dinamarquês, mas eles demonstram a educação de outras formas. No início, os dinamarqueses são bem reservados, e tendem a não discutir coisas pessoais ou que tragam algum incômodo. Mas depois, eles se soltam e se mostram superamigáveis! Eles gostam muito de jogar jogos de tabuleiro e ir a pubquiz, um evento de quiz realizado em bares. Existe uma palavra intraduzível em dinamarquês chamada hygge, que é basicamente o “ato de se sentir confortável e feliz com seus amigos”, e os danes prezam bastante por isso!

intercâmbio na Dinamarca

Você foi para outras cidades/países que não o que você está morando?
Como a Dinamarca fica bem localizada, tive a oportunidade de conhecer vários lugares. Até agora fui para Copenhage, Helsingor (Dinamarca), Helsingborg (Suécia), Berlim, Hamburgo, Londres, Praga Viena e Estocolmo. Meu sonho é fazer uma roadtrip pela Dinamarca, mas talvez não dê tempo de fazer ☹️

intercâmbio na Dinamarca

Qual é a coisa mais difícil de fazer um intercâmbio? E qual é a melhor parte de fazer um intercâmbio? Como você lida com a saudade? Foi/é difícil fazer amigos no país que você está? Tem alguma dica para futuros intercambistas?
Acho que a parte mais difícil de um intercâmbio é a saudade que a gente sente de casa. Por mais que tudo pareça funcionar bem melhor que no Brasil e a gente acabe se desacostumando com isso, às vezes sinto falta daquele ambiente brasileiro, das pessoas falando em português, pequenos detalhes que a gente nem presta atenção quando mora lá. Sinto muita falta da comida também, daquela feijoada de sexta ou dos salgados tipicamente brasileiros, haahaha. Não nego que às vezes a solidão bate e me pego chorando baixinho. Mas hoje em dia sinto que já posso sentir que parte de Aarhus é minha casa, o que me aperta o coração porque daqui a pouco tô voltando!

Uma das coisas mais valiosas em um intercâmbio sem dúvida é sair da caixinha e abrir a mente. Quando a gente mora em um país diferente, tem que estar preparado para todo tipo de choque: o modo de pensar das pessoas, a cultura, a língua, etc. Estereótipos são destruídos e entender como a sociedade funciona é o primeiro passo para deixar de ser um “forasteiro” e passar a ser incorporado nela. Um olhar sem preconceitos nos permite perceber o que tem de melhor em um país e outros aspectos que deixam a desejar. Ou ainda, valorizamos pequenos detalhes do país de origem, e percebemos as falhas não tão óbvias da terra natal. Nem a Dinamarca nem o Brasil são perfeitos. Fazer um intercâmbio permite ampliar as perspectivas e pensar em soluções diferentes para os problemas, que, caso contrário, não seriam consideradas.

intercâmbio na Dinamarca

Eu sou uma pessoa muito reservada, caseira (entre balada e ver filme escolho o último) e demoro muito tempo para me sentir confortável com alguém que não conheço. Por isso mesmo, fiz poucos amigos por aqui. A maioria dos meus amigos são dinamarqueses, do dormitório mesmo (não consegui me entrosar com os intercambistas, as conversas são quase sempre forçadas). E eu adoro isso! Quando tento arriscar um dinamarquês eles são super-receptivos, e realmente adoro o ambiente aconchegante da minha cozinha (a cozinha e a sala são compartilhadas). Frequentemente jogamos Sing Star (karaokê em dinamarquês!), trocamos receita, vamos a pubquizzes ou fazemos sessões de cinema com bastante comida. Hoje mesmo ficamos só aproveitando o sol no jardim, jogando conversa fora.

intercâmbio na Dinamarca

Se for dar uma dica para intercambistas no quesito amizade é: não se isole com o pessoal da sua nacionalidade ou ainda com outros intercambistas. Aproveite que está em um país diferente para criar laços com os locais! Claro que é super legal ter amigos de várias nacionalidades e a troca de informações certamente é riquíssima, mas fazer intercâmbio também é vivenciar o dia-a-dia como um nativo, e isso é uma experiência que nunca irá conseguir em outro lugar. Esteja aberto a oportunidades também! Intercâmbio não é sinônimo de mochilão (apesar de que muita gente confunde as duas coisas). Viajar é ótimo (e eu mesma viajo muito), mas não deixe de estudar ou de ir atrás de outros conhecimentos, cursos, palestras, workshops ou de se aproximar e trocar ideias com aquele professor da sua área de interesse.

intercâmbio na Dinamarca

Como você acha que o intercâmbio te mudou?
Grande parte das mudanças passa despercebida, né? De modo geral, percebo que sou uma pessoa muito mais crítica hoje do que quando estava no Brasil. O intercâmbio me fez enxergar com mais clareza os meus pontos fortes e os fracos, e hoje, tento trabalhar para melhorá-los. Um baita exercício de autoconhecimento! Fiquei mais resiliente também. Lidar com perrengues em um país onde você não fala a língua nativa com certeza aumentou meu grau de independência, me fez ter certeza de que eu sou capaz de tudo. Aprendi a valorizar cada momento da minha vida, coisa que não fazia no Brasil. Antes, eu vivia dia após dia fazendo as mesmas coisas, como um robô. Acho que com o intercâmbio e com tantos impactos vindo das mais variadas direções, recuperei parte do meu lado humano.

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Eu adorei fazer esse post-entrevista com a Saphíria! Deve ser uma experiência e tanto morar num lugar tão legal quanto a Dinamarca! E ai, o que acharam? Ficaram com mais vontade de fazer um intercâmbio como eu fiquei depois de ler esse post? Haha 🙂

A Saph também tem um blog incrível que fala mais do intercâmbio dela: o 184 Days in Denmark. Os posts da Saph sempre são super bem escritos, com fotos lindas. Vale muito a pena conferir! Se quiserem acompanhar mais de perto o intercâmbio dela, sigam a Saphíria no instagram e no snapchat (saphshimizu)!

Se vocês tiverem alguma pergunta em relação ao intercâmbio da Saphíria ou em relação a intercâmbios em geral, não deixe de escrevê-la nos comentários!

Author: Tatyanna Gois

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